terça-feira, 9 de abril de 2019

ARTIGO - ABRIL/2019 - PARA REFLETIR



A APLICAÇÃO DO VAR E O ASSÉDIO ÀS EMOÇÕES 
Tecnologia de Marionetes 

George Orwell, através de sua aplaudida obra “1984”, fez esta denúncia no ano de 1948 e a publicou em 1949.

Recentemente, com viés político, Ignácio de Loyola Brandão, também fez tal alerta em seu mais novo romance “Desta terra nada vai sobrar, a não ser o vento que sopra sobre ela”. 

Hodiernamente a sociedade é controlada por satélites, radares, câmeras, redes sociais; e todos, sem exceção, bisbilhotam a vida alheia. De forma instantânea, terceiros, conhecidos ou não, autorizados ou não, conhecem sua localização, suas atitudes, suas frustrações, suas alegrias, seus mais íntimos desejos. 

A sociedade está se deixando levar pela onda gigante da espionagem. Está a deriva. E vai se afogar. 

Demorou um pouco, mas o esporte também foi sugado pela onda, pelo monitoramento. 

A tecnologia no esporte veio para ficar. 

Contudo, a tecnologia no futebol, chegou para controlar mentes. Assediar emoções. 

Mundialmente, milhares, milhões de torcedores, no mesmo instante (separados apenas por fusos horários), suportam, silenciosamente, da insanidade – para se dizer o mínimo, que se tornou a tecnologia para o futebol. 

Fora e dentro dos estádios, alguns chamados de arenas. 

Inicia-se com o desfraldar das bandeiras incompetentes do Poder Público ao exigir que uma única torcida (em alguns países é permitida uma pequena divisão de 20%) siga o caminho predeterminado pela cavalaria da polícia até chegar ao seu lugar demarcado. A única liberdade do torcedor é escolher se ficará e pé ou sentado. Em alguns lugares, nem isso. 

Dentro do estádio / arena, consciente ou inconscientemente, o torcedor marionete, seja de que nacionalidade for, é indevidamente controlado até em suas emoções. 

A tecnologia se tornou uma doença. Incurável. A insana e leviana aplicação do uso do VAR já contaminou o futebol mundial e os torcedores, estão tendo, jogo a jogo, suas emoções manipuladas e controladas por interesses maiores, obscuros e, ainda, desconhecidos. 

Antigamente, embasados pelos usos e costumes da época, nas arenas romanas tanto a coletividade local, quanto a sociedade em geral, apesar de sua barbárie, participava dos julgamentos dos jogos a que assistiam. Podiam torcer e do julgamento dos “lances” do jogo, participavam. 

Atualmente os torcedores, são manipulados por imagens que reproduzem apenas e tão somente a verdade do fato. As imagens não reproduzem a verdade real do instante do lance. Isto porque a velocidade é tão grande que sequer o olho humano pode captá-la. 

A câmera de televisão, corrida e/ou lenta, jamais reproduzirá a velocidade do lance feito pelos atletas. 

Imagens. Reproduções. Réplicas. Imaginações. Abstrações. Recordações. Irrealidades. Ou seja, o uso da tecnologia por ser manipulável, pode manipular resultados conforme diversos interesses. 

Pior. Além do poder de manipulação de resultados, inegável é que controla mentes, desencadeia ansiedades, fere emoções. 

Do latim “imago”, significa, sombra, figura, imitação. 

Ao revisar uma decisão de campo através de imagens que não são reais (sombras / imitações) - mesmo que repassadas em telões para todos os presentes, o detentor do poder de decisão frustra sentimentos de torcedores que estavam no auge de sua emoção. 

Mais absurda é a prática no Brasil, onde a torcida presente ao estádio sequer pode ouvir as conversas dos pontos eletrônicos e muito menos ver as imagens em telões. Ficam os torcedores, vibrando por uma marcação de um lance ou de um gol por longos 3, 5, 7 até 10 minutos, para depois perceberem que sua emoção se transformou em frustração. 

A frustração se torna resignação. 

A resignação leva ao silêncio. 

O silêncio torna a coletividade apática, frágil, manipulável. 

Sociedade frágil e manipulável é passível de controle, seja pelo poder que for, que, por óbvio, utilizará da ignorância coletiva que será aflorada. 

Inegável é que, em âmbito mundial, estão usando a tecnologia no futebol, como ferramenta de assédio emocional. 

Assédio do latim “vexationes”. 

O assédio emocional busca distorcer a realidade para confundir o telespectador. “In casu” sua prática é facilitada pelo cerco (pessoas dentro de estádios / arenas), pela insistência (várias e variadas repetições da sombra, da imagem impura, da figura). Citada prática é injusta, indevida e quiçá criminosa, pois beira as raias da ilicitude penal. Se é que tal limite, também imaginário, já não foi ultrapassado. 

Falar que a tecnologia traz justiça ao futebol é tergiversar sobre um bem menor. 

O que se deve discutir é o mal maior. Neste caso, o uso da tecnologia tem por intenção, com suas práticas espúrias mas subliminares, controlar e assediar as emoções da sociedade como um todo. 

De admirar que jornalistas sérios e pessoas notórias fazedoras de opiniões não estejam percebendo a onda gigante a monitorar e afogar a sociedade futebolística. Pior é, caso estejam percebendo, inteligentes que são, preferirem se calar a fim de sustentarem cargos e exposições nas mais variadas mídias. 

A justiça do futebol não está no ganhar ou perder. A disputa sempre terá um vencedor, um vencido, um classificado. 

A justiça no futebol se mostra pelo respeito que se dá ao torcedor. E também, é claro, pelo respeito que o cidadão torcedor exige para si mesmo, seja isolada ou coletivamente. 

O direito à emoção está sendo arrancado do torcedor, que marionete calada, está aceitando passivamente. 

Se assim definitivamente for, certo é que torcedores não mais estarão presentes em estádios / arenas. Todos, palhaços com mentes deturpadas, seremos meros espectadores de imagens controladas por terceiros cujas intenções reais não serão as melhores para a sociedade mundial. 



JOSÉ CAIADO NETO 
Advogado em São Paulo 
08/05/2019



4 comentários:

  1. É mesmo para se pensar e refletir. Muito interessantes as colocações do advogado Caiado.

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  2. Futebol e tecnologia devem andar juntos, mas sem tirar a emoção do campo. Existem erros que são passíveis de anulação, quando não há dúvida alguma, pois isso deixa o jogo mais justo. Mas toda hora se valer do VAR para qualquer coisa é banalizar e acabar com o futebol.

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  3. O texto é muito apropriado para o momento, José Caiado, Roberto Fleury e demais leitores.
    Uma informação em uma matéria de Sociologia no primeiro ano da faculdade, virou conhecimento pra mim.
    Isso porque já se passaram vinte e poucos anos e eu não a esqueci: “Não existe verdade absoluta” dizia o texto.
    Serve muito bem para essa nova fase do futebol.
    Vivi domingo na Arena esse momento com o VAR. 39 mil torcedores numa num clássico e numa semifinal de um torneio, vibraram, se emocionaram, gritaram, se abraçaram e logo repararam no árbitro segurando o fone de ouvido pra ouvir um contato com a central de arbitragem.
    Depois de eternos 2, 3 minutos a decisão. O pé do atacante estava à frente do adversário numa linha digital imaginária. Virou ciência.
    O silêncio foi maior que o grito da torcida.
    No mesmo dia escrevi numa rede social que roubaram a minha emoção e eu a queria de volta.
    Já vi discussões sobre o erro da arbitragem há mais de 15 anos. Nela diziam que fazia parte do futebol, que geravam discussões eternas que aumentavam a paixão pelo esporte.
    Robotizar as imagens e a emoção de um gol ficar reservada até a decisão de alguns, não é justo.
    Então, não existe verdade absoluta.
    Nem que digam que é mais ou menos justa essa nova fase.
    No entanto, acabar com a sensação de um grito de gol, é condenar esse esporte.

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  4. Professor e Doutor Caiado. É o Edu (ex Consist) Há quanto tempo não tinha notícias suas. Ótimo artigo. Entre em contato: 43 999175935. Abraços.

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